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A escolha que vai mudar a Europa - Revista Isto É

Internacional

A escolha que vai mudar a Europa

Por que o resultado da eleição mais indefinida dos últimos 50 anos na França pode reconfigurar a União Europeia e trazer consequências para o mundo

A escolha que vai mudar a Europa

SEM FAVORITO Os candidatos que lideram as pesquisas: quatro deles estão em empate técnico

Elaine Ortiz

20.04.17 - 19h00
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Uma nova Revolução Francesa se avizinha. No domingo 23, 47 milhões de eleitores irão às urnas escolher o sucessor de François Hollande, o presidente mais impopular da história recente do país. Durante seu governo, os franceses enfrentaram uma forte crise econômica e se tornaram alvo de repetidos ataques terroristas. A França, que se acostumou à alternância da direita e da esquerda no poder por quase quatro décadas, agora vive um cenário eleitoral totalmente imprevisível: 11 candidatos estão na corrida presidencial e quatro deles seguem empatados tecnicamente nas pesquisas de intenção de voto, com chances iguais de chegar ao segundo turno. Os representantes moderados da direita e da esquerda correm o risco de eliminação diante de Marine Le Pen, do partido de extrema-direita Frente Nacional, e do banqueiro e ex-ministro do presidente François Hollande Emmanuel Macron, que lidera o movimento liberal Em Marcha!, de centro, criado por ele mesmo no ano passado.

Internamente, a França se vê frustrada diante de uma economia estagnada, situação que afeta o emprego e a renda e para a qual o atual presidente Hollande, assim como seus antecessores Nicolas Sarkozy e Jacques Chirac, mostraram-se incapazes de solucionar. É aproveitando esse momento que Le Pen e Macron construíram seus discursos, cada qual com propostas completamente diferentes. Le Pen, que iniciou a corrida eleitoral em vantagem, culpa as forças externas e promete proteger os eleitores com uma combinação de mais barreiras e maior bem-estar social, além de condenar a globalização como uma ameaça aos empregos franceses e os cidadãos islâmicos como potenciais terroristas. Macron aposta no contrário, defendendo uma maior abertura e a permanência no bloco econômico.

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Extrema esquerda

Uma surpresa foi a recente subida de Jean-Luc Mélenchon nas pesquisas de intenção de voto. Representante da extrema esquerda, ele tem um discurso tão inflamado e perigoso quanto o de Marine Le Pen, uma vez que também é contrário à União Europeia. “Muitos ex-eleitores de esquerda voltaram-se para a Frente Nacional de Le Pen porque pensam que a esquerda já não os defende mais”, diz Alexandre Afonso, professor de Políticas Públicas da Universidade de Leiden, na Holanda. “Até agora, a extrema direita sempre havia sido bloqueada pelos partidos tradicionais no segundo turno, mas o que vivemos no momento é uma grande indefinição”, afirma. A ascensão de Mélechon deixa a eleição mais embaralhada ainda. O representante da direita, François Fillon, cujas chances de vitória foram abaladas depois de ter seu nome envolvido em um escândalo de corrupção, ainda não é carta fora do baralho.

O conturbado processo eleitoral na França é reflexo de seus problemas internos e também das transformações em curso no mundo, incluindo a implosão das tradicionais ideologias de esquerda e de direita e a ascensão do conceito de economia aberta ou fechada. Após anos de elogio da globalização, uma onda conservadora fortalece a tendência ao protecionismo e a construção de novas barreiras comerciais e geográficas. A saída do Reino Unido da União Europeia simboliza o fim da integração regional construída por décadas. É nesse contexto que o futuro da França impacta no resto do mundo. “A eleição francesa será decisiva para estabelecer os rumos da Europa”, diz Paulo José Whitaker Wolf, professor de Relações Internacionais da Escola de Extensão da Unicamp. “Irá marcar um continente divido entre aqueles que defendem a abertura, a tolerância e a cooperação e aqueles que bradam pelo isolamento, pela intolerância e pela falta de cooperação”.

Inglaterra

Do outro lado do Canal da Mancha, a primeira-ministra britânica Theresa May conseguiu na quinta-feira 19 realizar uma manobra para garantir que o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) se concretize. O Parlamento inglês aprovou, por 522 votos a 13, a realização de uma eleição nacional antecipada no dia 8 de junho — a próxima eleição nacional só aconteceria em 2020. A estratégia de May é aproveitar o momento positivo de seu Partido Conservador diante do eleitorado, vencer o pleito e, assim, dar continuidade ao Brexit com tranquilidade. Uma vitória representará uma jogada de mestre. Uma derrota nas urnas, porém, colocará em xeque todas as conquistas que ela obteve.

O que está em jogo

Com candidatos que defendem propostas divergentes, o resultado da eleição na França terá impacto além das fronteiras do país

Frexit
Apenas dois candidatos, Emmanuel Macron e François Fillon, defendem a permanência da França na União Europeia. Qualquer outro que vença pode dar início ao Frexit, a saída do bloco.

Avanço da extrema direita
Uma eventual vitória da líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen poderá desencadear uma onda ultra-conservadora no continente

Avanço da extrema esquerda
Jean-Luc Mélenchon, candidato pelo movimento de esquerda radical França Insubmissa, defende a ruptura do atual modelo político e econômico, o que pode gerar um quadro de instabilidade

Fonte: http://istoe.com.br/escolha-que-vai-mudar-europa/