Editorial da edição 26 da revista Leituras de Economia Política

O Conselho Editorial da revista Leituras de Economia Política (LEP) – gerida pelos alunos da pós-graduação do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – apresenta sua vigésima sexta edição. Como linha editorial, este periódico publica trabalhos voltados à Economia Heterodoxa. De forma particular, nesta edição foram reunidos, principalmente, trabalhos sobre o Brasil, levando em conta seus aspectos sociais, históricos e econômicos.

Assim, o primeiro trabalho, “Salário mínimo na era do Real sob a perspectiva da Economia Política” (baixe), traz uma análise macroeconômica a respeito do salário mínimo brasileiro, considerando o período de 1994 até 2015. Valdemir Severino da Silva e Cristina Fróes de Borja Reis argumentam que o cenário econômico e político que marcou o final do primeiro mandato e início do segundo mandato de Rousseff, por um lado, levou à obtenção de melhorias nos rendimentos e padrões de vida dos trabalhadores; por outro lado, houve ameaças ao desenvolvimento do capital financeiro e industrial.

Especificidades do pensamento histórico e social brasileiro podem ser compreendidas por meio da leitura de “Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso: apontamentos sobre democracia e autoritarismo” (baixe), de Camila Vian de Jesus. No texto, a autora apresenta interpretações acerca da questão democrática e do autoritarismo, tendo como base a evolução dos pensamentos de Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. A autora ressaltou pontos de semelhanças e divergências entre os intelectuais, dois estudiosos que têm em seus escritos uma relevante fonte para o entendimento da formação e do desenvolvimento histórico e social do Brasil.

O terceiro texto publicado envolve investigação num município do nordeste brasileiro. O estudo trata da terra, considerando os seus diversos atributos: ativo essencial para a agricultura; parte integrante da atividade especulativa; apresenta rentabilidade alta e riscos baixos; desempenha impacto nas decisões de investir. Em “A terra como ativo – as variações do preço da terra em Palmeira do Piauí (PI)” (baixe), Adâmara Felício, Adriano Bliska, Ana Paula Bueno, Gabriela Benatti e Vahíd Vahdat buscaram entender a variação dos preços da terra em Palmeira do Piauí partindo do arcabouço keynesiano e pós-keynesiano e das contribuições de Minsky. Em suas conclusões, os autores afirmaram um problema comum no Brasil, característico também de Palmeira do Piauí: a concentração de terras e os conflitos por sua propriedade.

No artigo intitulado “Trabalho material e imaterial: a ampliação da exploração na economia do conhecimento” (baixe), Juliana Moraes Assis Gouveia discute a questão da materialidade e imaterialidade do trabalho, partindo de correntes heterodoxas da economia para sua argumentação, como a neoschumpeteriana e a marxista. A autora destaca que, embora na atualidade os trabalhadores possuam maior independência, tal independência é ainda dominada pela exploração que se tornou possível com o desenvolvimento de um capitalismo cognitivo presente em nossa sociedade.

No quinto artigo deste número, o debate gira em torno de um programa social da economia brasileira: o Bolsa Família. Em “O Bolsa Família no enfrentamento da pobreza e na sequência histórica das grandes políticas econômicas brasileiras: suas condições de possibilidade” (baixe), Lucas Casonato, André Luiz Corrêa e Suzana Cristina Fernandes de Paiva trataram do programa de duas maneiras: primeiro, como política necessária ao enfrentamento da pobreza; depois, como resultado da relação entre pobreza e políticas econômicas adotadas nos últimos 50 anos. Como consequências do Bolsa Família, os autores destacaram o amplo atendimento de famílias beneficiadas, redução da pobreza e da desigualdade social, e externalidades positivas nos direitos de cidadania das famílias.

Uma parte importante da história do Brasil pode ser revisitada pela leitura do último artigo publicado nesta edição, “O Brasil império: uma análise fundamentada na teoria do poder global” (baixe). O trabalho refere-se à importância do Império brasileiro para interesses comerciais, financeiros e geopolíticos ingleses. Cristina Fróes da Borja Reis e Bento Antunes de Andrade Maia analisaram as relações entre Brasil e Inglaterra destacando elementos específicos: dívida pública, tributação, território e guerras, à luz da teoria do Poder Global.

Mostraram que a participação brasileira nas movimentações comerciais e financeiras da Inglaterra foi pequena, em comparação com outros países periféricos.

Esta vigésima sexta edição do periódico, assim como as anteriores, vale acentuar, não é resultado do trabalho apenas dos membros do Conselho Editorial, mas de diversas pessoas que contribuem com a organização e manutenção da revista, bem como com a avaliação de artigos enviados por nossos autores.

Finalmente, desejamos uma boa leitura. Que este número possibilite a reflexão sobre as particularidades sociais, históricas e econômicas do Brasil, sobretudo por conta das transformações pelas quais o país vem passando.

Foto: Sergio Magalhães/Fiocruz