Fernando Nogueira da Costa*

Fui aluno bolsista, escolhido por concurso e com exigência de mérito para manter a bolsa de estudos, durante minha graduação na FACE-UFMG. Inesquecível foi receber a primeira bolsa e correr à loja para comprar meu primeiro disco: Willy and the Poor Boys, lançado em 1969 pela banda de country rock californiana Creedence Clearwater Revival.

Gostava dessa fusão do rock com a música country, um verdadeiro revival, pois o Rock and Roll, antecedente do rock, tinha nascido de uma combinação do Rhythm and Blues com a música Country and Western, uma fusão evidente no rockabilly dos anos 1950. Anotei, então, meu primeiro (e último) “modelo de economista”: R&R = R&B + C&W.

Essa paixão pelo rock me despertou o desejo de conhecer suas raízes. Quando o blues rural afrodescendente, em versão urbana com guitarras elétricas, reuniu-se com a música rural dos brancos pobres e/ou cowboys do Oeste, teve início uma revolução nos costumes – e na tolerância étnica. Essa miscigenação resultou em música popular norte-americana tão boa quanto a brasileira, pois ambas compartilharam as mesmas raízes nos ritmos africanos.

Rock se referia a sacudir, perturbar ou incitar. O verbo roll era uma metáfora usual que significava ter relações sexuais. Pela década de 1940, o termo foi usado com duplo sentido, referindo-se tanto a dançar quanto ao ato sexual.

Tudo isso era excitante para um pós-adolescente buscar mais conhecimento. A folk music cantada por Bob Dylan, por exemplo, motivou-me a conhecer seu inspirador, Woody Guthrie (1912-1967). Seu legado musical é composto por centenas de músicas e baladas que abrangem muitos temas políticos. Sua guitarra registrava o dístico “This machine kills fascists”.

Guthrie viajou com trabalhadores migrantes expulsos da terra. Suas canções contavam experiências sofridas durante a Grande Depressão. Era reconhecido como o trovador que cooperava para a organização do sindicalismo, cantando as lutas sociais pela conquista da cidadania. Foi classificado como comunista pelos conservadores norte-americanos, mas nunca se tornou membro do Partido Comunista dos Estados Unidos.

Daí avancei em pesquisa, querendo conhecer todos os gêneros musicais (jazz, blues, soul, gospel, reggae, dub, ska, etc.), em época que o acesso ao estoque era difícil e caro. Era a Era do Vinil, A.CD, isto é, Antes do CD. Não poderia sequer sonhar que viveria a Era Digital com o barateamento do acesso a todo o acervo mundial de músicas pelo streaming. Hoje, facilmente, organizo playlists com músicas africanas, judaicas ou árabes. Os 126 milhões de assinantes de um streaming têm mais de dois bilhões delas.

Lembrei-me de toda essa prazerosa experiência pessoal para despertar também “o sabor de saber” nos meus alunos. Resolvi, no semestre letivo findo, motivar o conhecimento das interpretações do Brasil, entremeando a literatura histórica com a nossa cultura musical. As cinebiografias recentes (Vinicius, Chico, Raul, Tropicália, etc.) seriam ótimas motivações para apresentar os contextos socioculturais, econômicos e políticos das décadas passadas, anteriores ao nascimento dos estudantes de hoje.

Fiquei feliz com a avaliação oral e escrita que os alunos fizeram da nova experiência didática no curso Economia no Cinema: Cidadania e Cultura Brasileira. Utilizaram o conhecimento sobre as interpretações clássicas a respeito do Brasil para escrever um trabalho sobre Economia em Letras de Músicas, inspirado pela leitura da trilogia de Franklin Martins (Quem Foi Que Inventou o Brasil? A música popular conta a história da República de 1902 a 2002) e a audição da playlist que elaborei no Spotify (12142604272), denominada MPBE: Músicas Populares Brasileiras sobre Economia. Postei as letras no meu blog pessoal.

Mas eles encontraram muito mais letras com temas econômicos em quase todos os gêneros musicais cantados pelo povo brasileiro. Muitas variantes abrigadas na chamada MPB (Música Popular Brasileira) puderam ser pesquisadas, classificadas e analisadas, seja por gêneros musicais, seja por temas.

Para pesquisa e apresentação áudio-oral do trabalho, a turma foi dividida em cinco grupos para uma pesquisa que simulava desafios que encontrarão na vida profissional: dos sambas à bossa-nova; das marchinhas de carnaval às músicas de protestos; da Tropicália à MPB; das canções bregas, regionalistas e sertanejas aos rocks brasileiros; dos raps aos funks. Além de análise por gêneros musicais, classificaram os temas econômicos abordados que forneceram inspiração aos compositores. Eles analisaram se os compositores estiveram atentos aos principais eventos macroeconômicos ou se expressaram apenas a vida econômica pessoal. Concluíram que a MPBE pode ser escutada como uma expressão popular de reais problemas socioeconômicos.

Desde os primórdios, os letristas buscaram fazer a crônica musical de eventos, costumes, novidades, modismos e reviravoltas da vida nacional, de um modo geral – e da cena política e econômica, em particular. Chegamos à conclusão que nossa música segue fazendo a crônica da vida econômica nacional, expressando o sentimento popular sobre dinheiro, salário, dívida, vagabundagem (referência a desemprego), carestia (idem para inflação), desigualdade e criminalidade, ostentação pela mobilidade social.

Os estudantes foram criativos e demonstraram a capacidade analítica dessa expressão cultural. Um debate que surgiu, durante os seminários, foi a respeito do rótulo MPB. Não seria um “guarda-chuva” muito amplo, sob o qual quase tudo é classificado?

Contra argumentei, aliás, como o Chico disse em sua cinebiografia, que a Bossa Nova e a MPB das Músicas de Protesto dos anos 60 eram escutadas por uma vanguarda. Eu as aprecio muito até hoje. Tentei provar meu argumento sobre a preferência popular ao exibir o excelente documentário muito apreciado pelos alunos: Vou Rifar Meu Coração.

Depois disso, houve certo consenso de que, desde a música brega, passando pela música caipira, até os raps e os funks (“ostentação”), nesses gêneros musicais há uma expressão emocional que fala diretamente ao coração. Não há metáforas indiretas ou poesia academicista. É direto ao ponto! Dedo na ferida!

Fiquei feliz, mais uma vez, por aprender ensinando. Vários alunos comentaram que, depois deste curso, passarão a assistir filmes e escutar músicas de outra maneira, apreciando suas mensagens. Disseram-me que, antes, não davam bola para filmes brasileiros e tinham preconceitos em relação a diversos gêneros musicais populares. Aprenderam desde já, assim como aprendi ao longo da vida, a ter empatia com os problemas econômicos de pessoas menos favorecidas.

Para me despir de vez de preconceitos esnobes, tomo o exemplo dado pelos estudantes de apreço por um gênero musical que eu, praticamente, não conhecia — a da música caipira. Houve uma ótima apresentação, aplaudida espontaneamente pelos colegas, sobre as canções bregas, regionalistas e sertanejas. Humildemente, aprendi que não é coerente apreciar country music e depreciar a música caipira, no que se refere ao seu conteúdo político e econômico, cantada por verdadeiros menestréis.

Finalizo com o exemplo abaixo de música cantada pela dupla caipira Dino Franco e Moraí: A Inflação e o Salário.

A inflação e o salário se encontraram de repente / O salário cabisbaixo, a inflação toda imponente / Criticando a humildade foi dizendo malcriada / Seu baixinho inconformado você não está com nada / O salário envergonhado foi dizendo bem cortês / Afinal quem é a senhora, pra que tanta estupidez / A inflação muito arrogante respondeu toda orgulhosa / Sou a força poderosa que arrasa com vocês

Eu sou filha do dinheiro ganho desonestamente / Sou neta do juro alto, do agiota sou parente / Eu sou prima do desfalque, do luxo desnecessário / Ajudar ao semelhante pra mim é coisa de otário / Dificulto a prestação que aumenta sem piedade / Eu acelero a ganância e outras barbaridades / Quem esbanja do meu lado sempre tem aceitação / Sou a famosa inflação afligindo a sociedade

O salário respondeu você é cheia de trama / Estou muito revoltado com a sua grande fama / A senhora é responsável por um sucesso aparente / E também por sua culpa veio miséria pra gente / Eu sou o pobre salário irmão da renda precária / O meu pai é o suor da nobre classe operária / Minha mãe é a lavoura de milho, arroz e feijão / Ouça bem, dona inflação, a senhora é mercenária

Vê se você vai andando sua bruxa descarada / Vive ainda nesta terra gente bem intencionada / Deixe de rondar meu povo que trabalha honestamente / Saiba que sua presença esta sendo inconveniente / Não existe neste mundo o que Deus do céu não veja / O Sol nasce, aquece a Terra, venta, chove relampeja / Eu sou o salário humilde da cidade e do sertão / E abraça neste chão toda a gente sertaneja

A inflação foi respondendo no meio de uma risada / Sua ficha, seu salário não me assusta em quase nada / Agora me dá licença eu preciso ir adiante / Vou indo com meu cortejo pra negociata importante / O salário disse a ela todo cheio de razão / Eu nasci pra ser humilde e não mudo de opinião / Nunca fui inconformado como a senhora falou / Saiba você que eu sou o equilíbrio da nação


Professor Titular do IE-UNICAMP. http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..  


Este artigo reflete a opinião pessoal do autor.